
19.05.2026
Luís Auñón Perez, oboé solista no concerto "Luzes de Primavera"
Entrevista por Rui Baeta
Entrevista a Luís Auñón Pérez
Oboísta solista | Concerto Luzes de Primavera | Orquestra do Algarve
23 e 24 de maio de 2026 — Albufeira e Gambelas
Por Rui Baeta
Luís Peres nasceu em Valência, construiu carreira em Lisboa, e chega agora ao Algarve como solista — trazendo consigo um instrumento que afina toda a orquestra (esse conhecido universo misterioso) antes de começar a tocar, e uma obra que nasceu no fim de uma guerra com a convicção improvável de quem acredita que a música, e a beleza, é mais forte do que tudo o resto.
Caro Luís, seja muito bem vindo. É para nós um gosto enorme te-lo ca a tocar com a Orquestra do Algarve.
O Luís construiu a sua carreira entre Espanha e Portugal — estudou em Valência, integra desde 2015 a Orquestra Sinfónica Portuguesa no Teatro Nacional de São Carlos. O que é que Portugal lhe deu que Valência não podia dar — e o que é que trouxe consigo que nunca perdeu?
Portugal deu-me a coisa mais importante que qualquer um deve receber antes de começar um propósito na vida: uma oportunidade. Já passaram quase catorze anos daquela primeira audição. Era um rapaz de vinte e poucos anos sem experiência profissional no mundo da orquestra, e foram primeiro a Orquestra Metropolitana de Lisboa, e apenas três anos depois o Teatro Nacional de São Carlos, as instituições que acreditaram em mim como oboísta; decidiram que eu era o candidato que devia ocupar aquela cadeira. Estarei sempre muito grato pela oportunidade e pela confiança que recebi, o que me permitiu aprender este belo ofício por dentro, continuar a minha formação e crescer como músico e como pessoa no ecossistema artístico da capital portuguesa.
De Valência trouxe as mais belas recordações de uma infância vivida numa pequena vila onde a Banda Filarmónica servia ao mesmo tempo de ponto de encontro entre a amizade, a diversão e a formação musical. E obviamente, como qualquer valenciano… trouxe comigo a paella, uma receita muito apreciada pelos meus amigos portugueses.
Ah ficámos todos com água na boca! Como é natural, essa formação musical começou, portanto, muito cedo e num contexto quase comunitário. No Conservatorio Superior Joaquín Rodrigo, estudou depois com Francisco Salanova, Jesús Fuster e J. C. Gayot. Cada professor deixa uma marca diferente — não só na técnica, mas na forma de ouvir, de estar em palco, de se relacionar com o instrumento. Qual dessas marcas sente ainda hoje, quando levanta o oboé?
Sem dúvida que cada um dos professores deixa em nós uma parte de si que influencia, molda e se reflete no nosso carácter perante a abordagem da interpretação de qualquer peça ao longo da nossa vida profissional. Francisco Salanova e Jesús Fuster foram os meus professores no Conservatório Superior, ambos muito prestigiados na Região de Valência e verdadeiros virtuosos do oboé. Com eles evolui imenso em relação à técnica do oboé e também na construção e ajuste das palhetas, uma parte central no nosso desenvolvimento como oboístas. Monsieur Gayot, solista da Radio France durante muitos anos, foi fundamental no trabalho de aspetos estéticos e musicais. Assisti regularmente aos cursos que ele fazia em Espanha durante o verão, e visitei-o em Paris para receber as suas aulas.
Já estabelecido em Lisboa, tive a grande sorte de receber aulas e poder ouvir ao vivo os grandes oboístas da Europa como Stefan Schilli, Dominik Wollenweber, François Leleux, Hansjörg Schellenberger, Thomas Indermühle, Lucas Macías… Afinal, uma das vantagens das capitais é que por elas passam artistas, professores e orquestras incríveis com alguma regularidade, e sempre tentei aproveitar este facto para continuar a aprender.
Sem dúvida! Algo que as zonas periféricas têm de combater com alto custo. Todo esse investimento na aprendizagem acabou por ter um reconhecimento público assinalável. Venceu o 1.º Prémio de Oboé e o Prémio do Público no I Concurso Nacional de Oboé organizado pela Asociación de Fagotistas y Oboístas de España. O “Prémio do Público” tem um sabor diferente dos outros. O que sentiu nesse momento?
Para mim representou um momento muito importante, além da satisfação de receber este reconhecimento. O facto de ter começado a trabalhar bastante cedo fez com que decidisse não continuar a estudar o Mestrado no centro da Europa, o qual era o meu plano inicial após terminar os estudos em Valência. Foi no ano de 2015, já como músico da Orquestra Metropolitana de Lisboa, e utilizei este concurso para responder a uma pergunta que andava a repetir-se na minha cabeça: estarei a fazer bem as coisas em relação ao oboé? Felizmente a resposta do júri foi positiva, e recebi esse Primeiro Prémio que me deu a força de que precisava naquele momento para começar o período experimental como Solista A de Oboé no Teatro Nacional de São Carlos.
E o oboé é precisamente um instrumento que exige uma confiança permanente em si mesmo, porque nunca deixa o músico completamente tranquilo, não é? A construção das próprias palhetas, o controlo do ar, a resistência física — é um instrumento que nunca deixa o músico descansar. O que o atraiu nele, e o que é que ainda hoje o surpreende?
Sim, é mesmo assim. O oboé é um instrumento cheio de segredos e “truques” que o músico vai descobrindo pouco a pouco ao longo da carreira. Tenho a sensação permanente de que há sempre mais uma coisa a aprender, como se o caminho nunca terminasse — é mesmo isso, um instrumento que nunca deixa o músico relaxar. Talvez seja isso o que ainda hoje me surpreende, juntamente com o mistério de nunca saber como irá correr cada concerto, a incerteza de saber que todo o trabalho feito, as horas e horas dedicadas à técnica, à limpeza das passagens, ao estudo da partitura… tudo isso irá depender de dois pequenos pedaços de cana afiada atados com um fio sobre uma peça de metal e cortiça. Cada concerto, cada ensaio e cada vez que levantamos o oboé para tocar representa um desafio, um desafio viciante que leva o oboísta a querer atingir o nível seguinte, a querer aperfeiçoar aquilo que já foi feito. Acho que isto é realmente muito atraente. E sem dúvida, quando tudo funciona, o resultado é magnífico: o timbre do oboé é realmente encantador, sedutor, cativante… Strauss sabia disso quando compôs este concerto!
E nervos de aço, para aguentar tantas variáveis!
Essa centralidade do oboísta dentro da orquestra manifesta-se também num gesto muito particular. Em todas as orquestras, tradicionalmente, é o oboísta que dá o lá pelo qual todos os outros instrumentos confirmam a sua afinação. É um gesto aparentemente pequeno mas na realidade enorme. Qual o significado simbólico dessa prática e de que forma é que esse ritual define a relação do oboísta com os seus colegas?
Há muitas teorias a esse respeito. Eu acho que é prático que seja o oboé a afinar a orquestra, pois está colocado no centro da orquestra, o registo desse Lá é muito estável no instrumento e o timbre penetrante e direto do oboé permite ser ouvido por todos os colegas. Em relação a eles, este “ritual” representa sobretudo mais uma responsabilidade para o primeiro oboé, porque a afinação coletiva também irá depender daquela nota — mas confesso que não é a parte mais complexa do trabalho do oboísta.
Será um procedimento formal de eficácia de ordem prática do que outra coisa, então. Mas a sua relação com a música não se esgota nesse papel central dentro da orquestra. Para além da vida orquestral, tem explorado a música de câmara e a criação contemporânea — como no CD A Sombra dos Sentidos, com obras de Anne Victorino d’Almeida. O que é que esses outros contextos musicais lhe dão que a orquestra não dá?
Acho fundamental para qualquer músico explorar a música de câmara, também como parte central do trabalho dentro da orquestra. No meu caso particular, costumo fazer regularmente alguns concertos com quinteto de sopros ou quarteto de cordas com colegas do Teatro São Carlos e de outras orquestras da cidade. Também em formatos mais alargados com o Ensemble D’Arcos ou a Melleo Harmonia; com estas formações temos interpretado sinfonias de Mahler e Beethoven arranjadas para grupos que oscilam entre os oito e os quinze músicos.
Relativamente à minha colaboração no CD A Sombra dos Sentidos, estou muito satisfeito com o trabalho realizado e espero voltar a tocar as Fantasias Caetanas no próximo ano. Anne Victorino d’Almeida é, na minha opinião, uma das maiores criadoras de música contemporânea em Portugal — apenas uns meses atrás tocámos o seu quinteto de sopros em Almada, com uma grata resposta por parte do público. Hoje em dia há uma geração de compositores portugueses muito prolíficos na criação de nova música, seja de câmara, ópera ou música sinfónica, como Sérgio Azevedo, Eurico Carrapatoso, António Pinho-Vargas, entre outros. Acho importante que as formações do país levem ao palco regularmente esta nova música, que, além de ser nacional, representa criações de alto valor artístico.
É precisamente esse espírito de descoberta e de risco que o traz agora ao Algarve numa condição diferente. Neste concerto estreia-se como solista com a Orquestra do Algarve. Há uma diferença enorme entre estar integrado na orquestra ou estar à frente dela. O que muda — no corpo, na cabeça, na preparação — quando passa de músico de orquestra a solista como neste programa?
Poder tocar à frente de uma orquestra é uma oportunidade excecional e muito valorizada pelos instrumentistas, ainda mais quando a peça é o Concerto de Strauss, uma das músicas mais belas compostas para o nosso instrumento. Na temporada passada foi a minha primeira vez a interpretar este concerto, com a minha orquestra (OSP), e tenho feito os concertos para oboé de Haydn, Mozart ou Vivaldi. Cada uma dessas vezes fica na memória. A chave está na preparação: abordar a peça com meses de antecedência, escutar diferentes gravações, conhecer a partitura geral, experimentar diferentes ideias, fraseados, vibratos… e trabalhar com calma, pouco a pouco, descobrir a música, a intenção do autor, entrar no seu universo e fazer temporariamente parte dele, e finalmente criar a própria versão. Quando tudo isto está feito, o corpo e a mente estão relaxados, e chega o momento de fechar os olhos e começar a tocar.
Que grande lição de propriedade, legitimidade e liderança: preparação, com tempo e bom senso para no momento do concerto ser “só “ fechar os olhos e tocar — numa obra que nasceu, ela própria, de um gesto de fé na beleza. O Concerto para Oboé de Strauss foi escrito em 1945, nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial. É uma música de uma leveza e luminosidade quase paradoxais face ao que se passava no mundo. Quando a toca, é possível separar a beleza da música do peso do momento em que ela nasceu — ou essa tensão está sempre lá?
Infelizmente a história repete-se e novamente a guerra chegou à Europa, e não só… Talvez se os impérios construíssem mais instrumentos do que armas as coisas corressem melhor para todos, mas pronto, esta é uma outra conversa. Imagino que Strauss viveu aqueles dias com grande tristeza e descrença na humanidade. Mas só os grandes génios mostram essa capacidade de transformar o horror da guerra em beleza e esperança para as novas gerações. Este concerto é um dos grandes exemplos, onde podemos sentir momentos de calma quase divina mas também de dor e desespero, sempre com uma atmosfera de otimismo difícil de compreender naquele difícil contexto.
E a própria história do nascimento desta obra é, ela mesma, uma espécie de milagre. Strauss compô-lo depois de um encontro com John de Lancie, um jovem soldado americano que era também oboísta profissional e o visitou em Garmisch-Partenkirchen no fim da guerra. Um músico fardado de soldado que pede a um velho compositor que escreva para o seu instrumento. O que é que esta história lhe diz sobre o poder da música?
Nem sempre acontece, mas podemos dizer que este caso ilustra aquela ideia de que “por trás de um concerto extraordinário há uma história extraordinária” — e como bem sublinhou, esta história é absolutamente genial. Fala do poder da música como encontro entre civilizações, como um oásis para encontrar a paz, o entendimento e a união dos povos.
Strauss compôs este concerto no verão de 1945, numa daquelas que serão as suas últimas obras. Na minha opinião, resume a sua escrita desenvolvida ao longo de uma vida inteira, evocando indiretamente algumas das suas obras mais reconhecidas. Curiosamente, escolhe uma escrita muito mais “clássica”, bastante afastada da modernidade da linguagem usada, por exemplo, em Elektra — talvez como aconteceu a Beethoven ao escrever a sua Oitava Sinfonia.
Essa exigência técnica é também um espelho da grandeza da obra. Tecnicamente, esta é uma das partituras mais exigentes do repertório para oboé — frases longas, registo agudo, controlo absoluto da respiração. Quais são, para si, os maiores desafios desta obra — e os maiores prazeres?
Nós, oboístas, podemos estar eternamente gratos a Richard Strauss por este contributo ao repertório, mas nunca me surpreendeu que ele tenha escolhido o oboé. Naqueles maravilhosos poemas sinfónicos, canções e óperas, o oboé e a trompa são, na minha opinião, os instrumentos prediletos do compositor. Parece bastante óbvio ao ouvir obras extraordinárias como Uma Sinfonia Alpina, O Cavaleiro da Rosa ou Uma Vida de Herói — os dois instrumentos surgem sempre num momento especial, transcendental para a música… E no caso das trompas ainda ficaram duplamente bem servidas com os seus dois concertos para trompa e orquestra.
Para falar especificamente do Concerto para Oboé, tem toda a razão em qualificá-lo como desafiante. Acredito sinceramente que o tal John de Lancie devia ser um portentoso oboísta, pois os recursos técnicos necessários para interpretar a música que Strauss escreveu neste concerto são absolutamente exigentes — diria mesmo muito avançados para a sua época. Na minha opinião, o controlo da respiração e a resistência são os maiores desafios deste concerto: o músico deve fazer um uso muito eficiente do ar e da própria energia para conseguir interpretar as enormes frases, características da música do compositor alemão. Neste sentido, a técnica da respiração circular será um recurso de grande ajuda, pois permite respirar sem que o instrumento deixe de soar. Para mim, o maior prazer que a obra oferece — falando como músico mas também como ouvinte — é o final do segundo andamento, aquele pianissimo que convida a refletir sobre a vida, assim como o quarto andamento, uma “valsa” que me faz recordar a música de O Cavaleiro da Rosa, cheia de graça, beleza e otimismo.
Essa leveza do quarto andamento tem o seu prelúdio no terceiro. O Vivace tem um carácter quase lúdico, primaveril, cheio de alegria. Como encontra o equilíbrio entre a seriedade interpretativa e a espontaneidade que a música exige?
Uma das características que tornam este concerto uma obra fascinante é o facto de encontrarmos nas suas páginas, não referências diretas, mas música que evoca outras obras do compositor. Por exemplo, para mim o primeiro andamento é facilmente identificável com algumas das partes expressivas dos seus poemas sinfónicos, e o segundo andamento faz lembrar as suas Últimas Quatro Canções. Efetivamente, o carácter do terceiro andamento, o referido Vivace, tem aquela frescura da música das Aventuras de Till, com temas que cheiram a música popular em constante diálogo com os elementos solistas da orquestra (flauta, clarinete, trompa…). E como já disse, aquele tema do último andamento, otimista e positivo, ao estilo de O Cavaleiro da Rosa, com certeza irá deixar o público com uma excelente sensação de esperança.
Essa esperança parece ser o fio condutor de toda a noite. O programa Luzes de Primavera reúne Wolf-Ferrari, Strauss, Fanny Mendelssohn e Mozart — séculos diferentes, mas uma ideia comum de frescura e luminosidade. Como é que este conjunto soa, no todo, aos seus ouvidos?
Acho que a composição do programa está muito bem estruturada. Efetivamente, mistura séculos e estilos bem diferentes, mas todos eles com a luz e o brilho que o nome deste concerto evoca. Se me permite assinalar mais um ponto em comum: tanto Wolf-Ferrari, com o seu Concerto para Corne Inglês e Orquestra e o Concertino para Oboé, como Mozart, com o seu mais do que famoso Concerto para Oboé, são compositores que dedicaram concertos ao nosso instrumento. No caso de Fanny Mendelssohn, é habitual tocar os seus 6 Lieder arranjados para oboé e piano.
E esta noite terá também a particularidade de ser dirigida por mãos jovens. Tocará sob a direção de dois maestros em formação — Yi-Chuan Chen e Giuseppe Stillitano — no âmbito do programa do Royal College of Music. Trabalhar com maestros em início de carreira tem uma dinâmica própria. O que é diferente — nos ensaios, na escuta, na relação em palco?
Na linha do programa, relacionado com a luz e a primavera, sem dúvida que maestros em formação são uma excelente escolha. Tenho a certeza de que aquela frescura de que falámos, o desafio da “primeira vez”, a ambição de querer construir uma carreira como maestros, será uma mais-valia nestes concertos. O Royal College of Music de Londres é uma das academias mais prestigiadas do mundo — tenho a certeza absoluta de que o nível destes maestros será muito elevado.
E o palco onde tudo isto vai acontecer também tem a sua própria magia. Estes concertos acontecem em maio, no Algarve — a luz, o ar, a natureza desta região têm uma qualidade muito particular nesta época do ano. Sente que o lugar e a estação influenciam a forma como a música soa e como o público a recebe?
Conheço bem o Algarve. Tenho-o visitado em diferentes alturas do ano, tanto por razões profissionais como pessoais. A beleza deste paraíso, a sua luz, as suas praias, aquelas rochas com formas impossíveis… somada à magia que naturalmente chega com a primavera, cria o contexto ideal para nos deixarmos inspirar pela música.
Que linda descrição! É um apaixonado pela região, nota-se bem. Mas então diga-me: Se Strauss foi capaz de criar toda aquela beleza dentro de uma Alemanha destruída pela guerra, qual é a desculpa para não nos deixarmos inspirar pela sua música no meio do paraíso algarvio?
Não há desculpa possível, de facto.
Evidentemente!
Caro Luís, termino esta entrevista de respostas tão francas e estimulantes com a pergunta de sempre, para sabermos nós próprios o que lhes dizer: se tivesse de descrever o Concerto para Oboé de Strauss a alguém que nunca ouviu música clássica — numa única frase —, o que diria?
Com a devida vénia ao génio de W. A. Mozart, o Concerto de Strauss é O CONCERTO.
Obrigado Luís e muito sucesso para os concertos!
Saiba mais sobre os concertos aqui.
19.05.2026
Luís Auñón Perez, oboé solista no concerto "Luzes de Primavera"
Entrevista por Rui Baeta
Entrevista a Luís Auñón Pérez
Oboísta solista | Concerto Luzes de Primavera | Orquestra do Algarve
23 e 24 de maio de 2026 — Albufeira e Gambelas
Por Rui Baeta
Luís Peres nasceu em Valência, construiu carreira em Lisboa, e chega agora ao Algarve como solista — trazendo consigo um instrumento que afina toda a orquestra (esse conhecido universo misterioso) antes de começar a tocar, e uma obra que nasceu no fim de uma guerra com a convicção improvável de quem acredita que a música, e a beleza, é mais forte do que tudo o resto.
Caro Luís, seja muito bem vindo. É para nós um gosto enorme te-lo ca a tocar com a Orquestra do Algarve.
O Luís construiu a sua carreira entre Espanha e Portugal — estudou em Valência, integra desde 2015 a Orquestra Sinfónica Portuguesa no Teatro Nacional de São Carlos. O que é que Portugal lhe deu que Valência não podia dar — e o que é que trouxe consigo que nunca perdeu?
Portugal deu-me a coisa mais importante que qualquer um deve receber antes de começar um propósito na vida: uma oportunidade. Já passaram quase catorze anos daquela primeira audição. Era um rapaz de vinte e poucos anos sem experiência profissional no mundo da orquestra, e foram primeiro a Orquestra Metropolitana de Lisboa, e apenas três anos depois o Teatro Nacional de São Carlos, as instituições que acreditaram em mim como oboísta; decidiram que eu era o candidato que devia ocupar aquela cadeira. Estarei sempre muito grato pela oportunidade e pela confiança que recebi, o que me permitiu aprender este belo ofício por dentro, continuar a minha formação e crescer como músico e como pessoa no ecossistema artístico da capital portuguesa.
De Valência trouxe as mais belas recordações de uma infância vivida numa pequena vila onde a Banda Filarmónica servia ao mesmo tempo de ponto de encontro entre a amizade, a diversão e a formação musical. E obviamente, como qualquer valenciano… trouxe comigo a paella, uma receita muito apreciada pelos meus amigos portugueses.
Ah ficámos todos com água na boca! Como é natural, essa formação musical começou, portanto, muito cedo e num contexto quase comunitário. No Conservatorio Superior Joaquín Rodrigo, estudou depois com Francisco Salanova, Jesús Fuster e J. C. Gayot. Cada professor deixa uma marca diferente — não só na técnica, mas na forma de ouvir, de estar em palco, de se relacionar com o instrumento. Qual dessas marcas sente ainda hoje, quando levanta o oboé?
Sem dúvida que cada um dos professores deixa em nós uma parte de si que influencia, molda e se reflete no nosso carácter perante a abordagem da interpretação de qualquer peça ao longo da nossa vida profissional. Francisco Salanova e Jesús Fuster foram os meus professores no Conservatório Superior, ambos muito prestigiados na Região de Valência e verdadeiros virtuosos do oboé. Com eles evolui imenso em relação à técnica do oboé e também na construção e ajuste das palhetas, uma parte central no nosso desenvolvimento como oboístas. Monsieur Gayot, solista da Radio France durante muitos anos, foi fundamental no trabalho de aspetos estéticos e musicais. Assisti regularmente aos cursos que ele fazia em Espanha durante o verão, e visitei-o em Paris para receber as suas aulas.
Já estabelecido em Lisboa, tive a grande sorte de receber aulas e poder ouvir ao vivo os grandes oboístas da Europa como Stefan Schilli, Dominik Wollenweber, François Leleux, Hansjörg Schellenberger, Thomas Indermühle, Lucas Macías… Afinal, uma das vantagens das capitais é que por elas passam artistas, professores e orquestras incríveis com alguma regularidade, e sempre tentei aproveitar este facto para continuar a aprender.
Sem dúvida! Algo que as zonas periféricas têm de combater com alto custo. Todo esse investimento na aprendizagem acabou por ter um reconhecimento público assinalável. Venceu o 1.º Prémio de Oboé e o Prémio do Público no I Concurso Nacional de Oboé organizado pela Asociación de Fagotistas y Oboístas de España. O “Prémio do Público” tem um sabor diferente dos outros. O que sentiu nesse momento?
Para mim representou um momento muito importante, além da satisfação de receber este reconhecimento. O facto de ter começado a trabalhar bastante cedo fez com que decidisse não continuar a estudar o Mestrado no centro da Europa, o qual era o meu plano inicial após terminar os estudos em Valência. Foi no ano de 2015, já como músico da Orquestra Metropolitana de Lisboa, e utilizei este concurso para responder a uma pergunta que andava a repetir-se na minha cabeça: estarei a fazer bem as coisas em relação ao oboé? Felizmente a resposta do júri foi positiva, e recebi esse Primeiro Prémio que me deu a força de que precisava naquele momento para começar o período experimental como Solista A de Oboé no Teatro Nacional de São Carlos.
E o oboé é precisamente um instrumento que exige uma confiança permanente em si mesmo, porque nunca deixa o músico completamente tranquilo, não é? A construção das próprias palhetas, o controlo do ar, a resistência física — é um instrumento que nunca deixa o músico descansar. O que o atraiu nele, e o que é que ainda hoje o surpreende?
Sim, é mesmo assim. O oboé é um instrumento cheio de segredos e “truques” que o músico vai descobrindo pouco a pouco ao longo da carreira. Tenho a sensação permanente de que há sempre mais uma coisa a aprender, como se o caminho nunca terminasse — é mesmo isso, um instrumento que nunca deixa o músico relaxar. Talvez seja isso o que ainda hoje me surpreende, juntamente com o mistério de nunca saber como irá correr cada concerto, a incerteza de saber que todo o trabalho feito, as horas e horas dedicadas à técnica, à limpeza das passagens, ao estudo da partitura… tudo isso irá depender de dois pequenos pedaços de cana afiada atados com um fio sobre uma peça de metal e cortiça. Cada concerto, cada ensaio e cada vez que levantamos o oboé para tocar representa um desafio, um desafio viciante que leva o oboísta a querer atingir o nível seguinte, a querer aperfeiçoar aquilo que já foi feito. Acho que isto é realmente muito atraente. E sem dúvida, quando tudo funciona, o resultado é magnífico: o timbre do oboé é realmente encantador, sedutor, cativante… Strauss sabia disso quando compôs este concerto!
E nervos de aço, para aguentar tantas variáveis!
Essa centralidade do oboísta dentro da orquestra manifesta-se também num gesto muito particular. Em todas as orquestras, tradicionalmente, é o oboísta que dá o lá pelo qual todos os outros instrumentos confirmam a sua afinação. É um gesto aparentemente pequeno mas na realidade enorme. Qual o significado simbólico dessa prática e de que forma é que esse ritual define a relação do oboísta com os seus colegas?
Há muitas teorias a esse respeito. Eu acho que é prático que seja o oboé a afinar a orquestra, pois está colocado no centro da orquestra, o registo desse Lá é muito estável no instrumento e o timbre penetrante e direto do oboé permite ser ouvido por todos os colegas. Em relação a eles, este “ritual” representa sobretudo mais uma responsabilidade para o primeiro oboé, porque a afinação coletiva também irá depender daquela nota — mas confesso que não é a parte mais complexa do trabalho do oboísta.
Será um procedimento formal de eficácia de ordem prática do que outra coisa, então. Mas a sua relação com a música não se esgota nesse papel central dentro da orquestra. Para além da vida orquestral, tem explorado a música de câmara e a criação contemporânea — como no CD A Sombra dos Sentidos, com obras de Anne Victorino d’Almeida. O que é que esses outros contextos musicais lhe dão que a orquestra não dá?
Acho fundamental para qualquer músico explorar a música de câmara, também como parte central do trabalho dentro da orquestra. No meu caso particular, costumo fazer regularmente alguns concertos com quinteto de sopros ou quarteto de cordas com colegas do Teatro São Carlos e de outras orquestras da cidade. Também em formatos mais alargados com o Ensemble D’Arcos ou a Melleo Harmonia; com estas formações temos interpretado sinfonias de Mahler e Beethoven arranjadas para grupos que oscilam entre os oito e os quinze músicos.
Relativamente à minha colaboração no CD A Sombra dos Sentidos, estou muito satisfeito com o trabalho realizado e espero voltar a tocar as Fantasias Caetanas no próximo ano. Anne Victorino d’Almeida é, na minha opinião, uma das maiores criadoras de música contemporânea em Portugal — apenas uns meses atrás tocámos o seu quinteto de sopros em Almada, com uma grata resposta por parte do público. Hoje em dia há uma geração de compositores portugueses muito prolíficos na criação de nova música, seja de câmara, ópera ou música sinfónica, como Sérgio Azevedo, Eurico Carrapatoso, António Pinho-Vargas, entre outros. Acho importante que as formações do país levem ao palco regularmente esta nova música, que, além de ser nacional, representa criações de alto valor artístico.
É precisamente esse espírito de descoberta e de risco que o traz agora ao Algarve numa condição diferente. Neste concerto estreia-se como solista com a Orquestra do Algarve. Há uma diferença enorme entre estar integrado na orquestra ou estar à frente dela. O que muda — no corpo, na cabeça, na preparação — quando passa de músico de orquestra a solista como neste programa?
Poder tocar à frente de uma orquestra é uma oportunidade excecional e muito valorizada pelos instrumentistas, ainda mais quando a peça é o Concerto de Strauss, uma das músicas mais belas compostas para o nosso instrumento. Na temporada passada foi a minha primeira vez a interpretar este concerto, com a minha orquestra (OSP), e tenho feito os concertos para oboé de Haydn, Mozart ou Vivaldi. Cada uma dessas vezes fica na memória. A chave está na preparação: abordar a peça com meses de antecedência, escutar diferentes gravações, conhecer a partitura geral, experimentar diferentes ideias, fraseados, vibratos… e trabalhar com calma, pouco a pouco, descobrir a música, a intenção do autor, entrar no seu universo e fazer temporariamente parte dele, e finalmente criar a própria versão. Quando tudo isto está feito, o corpo e a mente estão relaxados, e chega o momento de fechar os olhos e começar a tocar.
Que grande lição de propriedade, legitimidade e liderança: preparação, com tempo e bom senso para no momento do concerto ser “só “ fechar os olhos e tocar — numa obra que nasceu, ela própria, de um gesto de fé na beleza. O Concerto para Oboé de Strauss foi escrito em 1945, nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial. É uma música de uma leveza e luminosidade quase paradoxais face ao que se passava no mundo. Quando a toca, é possível separar a beleza da música do peso do momento em que ela nasceu — ou essa tensão está sempre lá?
Infelizmente a história repete-se e novamente a guerra chegou à Europa, e não só… Talvez se os impérios construíssem mais instrumentos do que armas as coisas corressem melhor para todos, mas pronto, esta é uma outra conversa. Imagino que Strauss viveu aqueles dias com grande tristeza e descrença na humanidade. Mas só os grandes génios mostram essa capacidade de transformar o horror da guerra em beleza e esperança para as novas gerações. Este concerto é um dos grandes exemplos, onde podemos sentir momentos de calma quase divina mas também de dor e desespero, sempre com uma atmosfera de otimismo difícil de compreender naquele difícil contexto.
E a própria história do nascimento desta obra é, ela mesma, uma espécie de milagre. Strauss compô-lo depois de um encontro com John de Lancie, um jovem soldado americano que era também oboísta profissional e o visitou em Garmisch-Partenkirchen no fim da guerra. Um músico fardado de soldado que pede a um velho compositor que escreva para o seu instrumento. O que é que esta história lhe diz sobre o poder da música?
Nem sempre acontece, mas podemos dizer que este caso ilustra aquela ideia de que “por trás de um concerto extraordinário há uma história extraordinária” — e como bem sublinhou, esta história é absolutamente genial. Fala do poder da música como encontro entre civilizações, como um oásis para encontrar a paz, o entendimento e a união dos povos.
Strauss compôs este concerto no verão de 1945, numa daquelas que serão as suas últimas obras. Na minha opinião, resume a sua escrita desenvolvida ao longo de uma vida inteira, evocando indiretamente algumas das suas obras mais reconhecidas. Curiosamente, escolhe uma escrita muito mais “clássica”, bastante afastada da modernidade da linguagem usada, por exemplo, em Elektra — talvez como aconteceu a Beethoven ao escrever a sua Oitava Sinfonia.
Essa exigência técnica é também um espelho da grandeza da obra. Tecnicamente, esta é uma das partituras mais exigentes do repertório para oboé — frases longas, registo agudo, controlo absoluto da respiração. Quais são, para si, os maiores desafios desta obra — e os maiores prazeres?
Nós, oboístas, podemos estar eternamente gratos a Richard Strauss por este contributo ao repertório, mas nunca me surpreendeu que ele tenha escolhido o oboé. Naqueles maravilhosos poemas sinfónicos, canções e óperas, o oboé e a trompa são, na minha opinião, os instrumentos prediletos do compositor. Parece bastante óbvio ao ouvir obras extraordinárias como Uma Sinfonia Alpina, O Cavaleiro da Rosa ou Uma Vida de Herói — os dois instrumentos surgem sempre num momento especial, transcendental para a música… E no caso das trompas ainda ficaram duplamente bem servidas com os seus dois concertos para trompa e orquestra.
Para falar especificamente do Concerto para Oboé, tem toda a razão em qualificá-lo como desafiante. Acredito sinceramente que o tal John de Lancie devia ser um portentoso oboísta, pois os recursos técnicos necessários para interpretar a música que Strauss escreveu neste concerto são absolutamente exigentes — diria mesmo muito avançados para a sua época. Na minha opinião, o controlo da respiração e a resistência são os maiores desafios deste concerto: o músico deve fazer um uso muito eficiente do ar e da própria energia para conseguir interpretar as enormes frases, características da música do compositor alemão. Neste sentido, a técnica da respiração circular será um recurso de grande ajuda, pois permite respirar sem que o instrumento deixe de soar. Para mim, o maior prazer que a obra oferece — falando como músico mas também como ouvinte — é o final do segundo andamento, aquele pianissimo que convida a refletir sobre a vida, assim como o quarto andamento, uma “valsa” que me faz recordar a música de O Cavaleiro da Rosa, cheia de graça, beleza e otimismo.
Essa leveza do quarto andamento tem o seu prelúdio no terceiro. O Vivace tem um carácter quase lúdico, primaveril, cheio de alegria. Como encontra o equilíbrio entre a seriedade interpretativa e a espontaneidade que a música exige?
Uma das características que tornam este concerto uma obra fascinante é o facto de encontrarmos nas suas páginas, não referências diretas, mas música que evoca outras obras do compositor. Por exemplo, para mim o primeiro andamento é facilmente identificável com algumas das partes expressivas dos seus poemas sinfónicos, e o segundo andamento faz lembrar as suas Últimas Quatro Canções. Efetivamente, o carácter do terceiro andamento, o referido Vivace, tem aquela frescura da música das Aventuras de Till, com temas que cheiram a música popular em constante diálogo com os elementos solistas da orquestra (flauta, clarinete, trompa…). E como já disse, aquele tema do último andamento, otimista e positivo, ao estilo de O Cavaleiro da Rosa, com certeza irá deixar o público com uma excelente sensação de esperança.
Essa esperança parece ser o fio condutor de toda a noite. O programa Luzes de Primavera reúne Wolf-Ferrari, Strauss, Fanny Mendelssohn e Mozart — séculos diferentes, mas uma ideia comum de frescura e luminosidade. Como é que este conjunto soa, no todo, aos seus ouvidos?
Acho que a composição do programa está muito bem estruturada. Efetivamente, mistura séculos e estilos bem diferentes, mas todos eles com a luz e o brilho que o nome deste concerto evoca. Se me permite assinalar mais um ponto em comum: tanto Wolf-Ferrari, com o seu Concerto para Corne Inglês e Orquestra e o Concertino para Oboé, como Mozart, com o seu mais do que famoso Concerto para Oboé, são compositores que dedicaram concertos ao nosso instrumento. No caso de Fanny Mendelssohn, é habitual tocar os seus 6 Lieder arranjados para oboé e piano.
E esta noite terá também a particularidade de ser dirigida por mãos jovens. Tocará sob a direção de dois maestros em formação — Yi-Chuan Chen e Giuseppe Stillitano — no âmbito do programa do Royal College of Music. Trabalhar com maestros em início de carreira tem uma dinâmica própria. O que é diferente — nos ensaios, na escuta, na relação em palco?
Na linha do programa, relacionado com a luz e a primavera, sem dúvida que maestros em formação são uma excelente escolha. Tenho a certeza de que aquela frescura de que falámos, o desafio da “primeira vez”, a ambição de querer construir uma carreira como maestros, será uma mais-valia nestes concertos. O Royal College of Music de Londres é uma das academias mais prestigiadas do mundo — tenho a certeza absoluta de que o nível destes maestros será muito elevado.
E o palco onde tudo isto vai acontecer também tem a sua própria magia. Estes concertos acontecem em maio, no Algarve — a luz, o ar, a natureza desta região têm uma qualidade muito particular nesta época do ano. Sente que o lugar e a estação influenciam a forma como a música soa e como o público a recebe?
Conheço bem o Algarve. Tenho-o visitado em diferentes alturas do ano, tanto por razões profissionais como pessoais. A beleza deste paraíso, a sua luz, as suas praias, aquelas rochas com formas impossíveis… somada à magia que naturalmente chega com a primavera, cria o contexto ideal para nos deixarmos inspirar pela música.
Que linda descrição! É um apaixonado pela região, nota-se bem. Mas então diga-me: Se Strauss foi capaz de criar toda aquela beleza dentro de uma Alemanha destruída pela guerra, qual é a desculpa para não nos deixarmos inspirar pela sua música no meio do paraíso algarvio?
Não há desculpa possível, de facto.
Evidentemente!
Caro Luís, termino esta entrevista de respostas tão francas e estimulantes com a pergunta de sempre, para sabermos nós próprios o que lhes dizer: se tivesse de descrever o Concerto para Oboé de Strauss a alguém que nunca ouviu música clássica — numa única frase —, o que diria?
Com a devida vénia ao génio de W. A. Mozart, o Concerto de Strauss é O CONCERTO.
Obrigado Luís e muito sucesso para os concertos!
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